Aqui é assim, chegou atraso a prenda come de esmola. Vejam que legal professora cursistas dançando uma valça uma de costas para outra.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Uma vida de aprendizagem com muitos professores
MEMORIAL DESCRITIVO
Por: Lucia Teixeira da Silva Furtado
Há muitos anos escrevo e reescrevo o Curriculum Vitae, todavia, memorial descritivo, é o segundo que elaboro. Elaborar um memorial descritivo é reconstituir a própria existência. Essa não é tarefa fácil, pois memorial é um retrato crítico do individuo visto por múltiplas facetas através dos tempos, o qual possibilita interferência de suas capacidades. Para mim o memorial não é só critico como autocrítico do desempenho acadêmico. Portanto, para elaborar o presente memorial levei em conta as condições, situações e contingências que envolveram o desenvolvimento dos meus trabalhos aqui expostos. Procuro destacar os elementos aqui marcados por quebras de paradigmas, por coerência e incoerências e por meio das relações estabelecidas com o mundo, possibilitam a construção de minha vida profissional. Além de considerar este memorial auto-avaliativo, acredito que ele acaba se tornando um instrumento confessional de meus sonhos.
O início
Sou a terceira filha de uma família de sete irmãos. Sempre nos relacionamos muito bem, o que me faz extremamente feliz e honrada em meio de tanta guerra e desunião entre as famílias, a minha goza harmonia e paz. Meu pai, falecido há 37 anos, era farmacêutico e minha mãe, permaneceu viúva até hoje, teve que enfrentar muitos serviços a fim de nos criar e por fim conseguiu ser funcionária pública estadual exercendo a profissão de auxiliar de enfermagem. Nasci no ano de 1961 em Salgueiro-PE.
Quando eu tinha três anos de idade fomos morar em Jati-CE, cidade onde realizei meus estudos em nível fundamental, em escolas isoladas, reunidas e estaduais. Porém todo o ensino médio foi desenvolvido em uma escola particular no município de Brejo Santo, pois na minha cidade só funcionava nas escolas o fundamental, até a 8ª série.
Fiz o magistério, ainda cursando no ano de 1981 recebi do primo Wilse da Silva Brito atual prefeito na época, um contrato de auxiliar de serviços gerais numa escola do estado. Esse emprego me proporcionou uma das maiores alegrias da minha vida. Posso dizer que ele desencadeou inúmeras habilidades em que hoje eu possuo, pois eu nunca exerci função de faxineira, devido os diretores enxergarem em mim capacidade de: ser datilografa, auxiliar de secretaria e por fim secretária escolar.
Outro fato marcante de minha vida foi a construção de uma família. Conheci meu esposo no ano de 1980, namoramos nove meses e nos casamos em 1981. Éramos tão jovens que, só tivemos condições de casarmos no religioso, pois na época meu esposo só tinha 17 anos. Em seguida tivemos um filho. Essa experiência me fez ver o mundo de uma forma diferente. A obrigação de ser mãe , dona de casa, esposa e ainda trabalhar para ajudar nas despesas de casa, com tão pouca idade fez de mim uma mulher preocupada com a repercussão de meus atos. Desde essa data, toda vez que sou instigada a dar uma opinião, procuro fazer sempre após muita reflexão.
Minha infância
Durante a minha infância a vida me impôs diversas experiências. Dos primeiros anos, tenho apenas vagas lembranças: como a dos banhos de bacia que eu não gostava, das brigas da minha tia e a morte do meu pai, que marcou até hoje a minha vida. Mas apesar de tudo, foi nessa fase que aprendi a amar as pessoas que me cercam.
Mais tarde, não lembro com quantos anos entrei para a escola. Pela primeira vez eu ficaria longe de minha família . no começo foi difícil, depois me acostumei. Ali eu aprendi a viver em grupo e a respeitar meus professores. Com o passar do tempo, aflora em mim os primeiros instintos amorosos. Os meninos agora não eram como as meninas, eles despertavam em mim sentimento diferente. Aconteceram as primeiras paqueras, as escondidas, pois os adultos ignoravam esse tipo de sentimento. Eles falavam que esse tipo de sentimento era repugnante e feio. As questões que eu fazia sobre este assunto eram recebidas com espanto, com repreensão. Muitas vezes chegava a me perguntar – por que toda essa obscuridade a respeito do amor? Se este sentimento está presente em todos, não prejudica a ninguém e é tão agradável? Tudo isso me confundia e me perturbava.
Enfim, a vida é isto, o conjunto das experiências porque passamos e ainda vamos passar. Na minha infância aprendi coisas boas e más e que hoje passo para os meus filhos orientando-os para a vida.
A Universidade: um sonho e um compromisso.
Após 14 anos sem estudar eu passei no vestibular na cidade de Salgueiro-PE. Para fazer o curso de Letras na FACHUSC, eu era obrigada a viajar a noite de ônibus, aproximadamente uma distancia de 160km, que é o percurso de ida e volta entre Brejo Santo porque no mesmo ano que passei no vestibular em 1998, também passei em um concurso público municipal em Brejo Santo em 1997, como lecionava a tarde não dava tempo vir para Jati e pegar o ônibus para Salgueiro, já vinha direto da escola para a faculdade, isso ocorreu até 2001, ano em terminei a faculdade.
O sentimento de ser professor.
Pois bem em 97 passei em um concurso público municipal fui contratada em fevereiro de 98 para ensinar no ciclo I ( modalidade que compreendia as séries alfabetização, primeira e segunda série do fundamental) atendendo alunos de 6, 7 e 8 anos. Foi uma experiência marcante, pois não sabia quase nada de sala de aula, didaticamente falando e aquela nova modalidade trazia a metodologia construtivista em que não nos foi apresentado nenhum modelo ou forma de ensinar, teríamos que criar e experimentar quais dariam certo. Confesso que, pensei em desistir, mas busquei força em Deus e prossegui. Acho que estudei mais para dar as aulas do que em todo curso da faculdade. Mas valeu a pena, pois ficamos 5 anos com essas turmas, porque compreendiam 5 salas, mas a diretora confessou-me que foram as melhores turmas em termo de aprendizagem, que a escola já teve.
Em 2003, passei em um concurso público estadual em Língua Portuguesa, para ensinar no ensino médio. Fui lotada em agosto de 2004 para ensinar a alunos 1ª, 2ª e 3ª série foi uma experiência extremamente significativa e que mais uma vez exigia muito de mim, pois tinha que ensinar Literatura Portuguesa e brasileira, gramática e redação. Gramática e redação eu não estranhei muito mas, literatura nas três séries do ensino médio foi cruel. No início de 2005 o núcleo gestor da escola, convocou os professores que se envolveriam em um projeto pedagógico com base em uma metodologia ativa de um trabalho diversificado em que aproveitaria a experiência do aluno. A autora desse projeto fui eu, em que eu me prendi a duas ações estratégicas as quais me ajudaram a superar as muitas dificuldades no ensino das literaturas. A primeira delas “ continuar a aprender depende da consciência do erro”. Essa atividade consistia em mostrar o aluno e ele foi bem sucedido ou onde e porque errou. O aluno que volta para sua carteira com o caderno na mão, não só com erros, tem poucas condições de avançar do estágio em que se encontra, assim como o que recebe apenas uma nota sem qualquer comentário ou retorno sobre seu desempenho.
Ao dar o retorno ou estimular a correção do erro, o professor possibilita do aluno localizar em que falhou e porque isso ocorreu. A consciência dos acertos, erros e lacunas permite que o aluno compreenda seu próprio processo de aprendizagem, desenvolvendo autonomia para continuar a aprender na escola e na vida .
A outra atividade foi: “ conhecer bem os alunos é preciso”. Então colocamos em pauta como metodologia e estratégia de ação. Para exercer seu papel com sucesso o professor precisa conhecer bem os alunos. Saber como os alunos aprendem não basta: cada um tem um rosto, um nome, uma história que deve ser conhecida. Então elaboramos um livro, intitulado “ Livro da Vida”. Cada turma tinha o seu, era uma pasta grande onde se juntavam redações dos alunos, sobre si próprios, relatos do cotidiano de sala e da vida e fora da escola. Existia uma professora que era responsável pela ação e a mesma fazia avaliação da ação mensal.
Essa experiência foi bastante proveitosa, deixando em mim um bom saldo positivo em que até hoje, quando me deparo com algum ex-aluno da época eles mencionam sobre a aprendizagem deles que deu um grande salto. Quase que eu não concluía o projeto, fazia e apagava. Mas esse foi o projeto piloto, a partir daí fomos capazes de criar vários outros, interferindo positivamente no ensino aprendizagem.
Minhas experiências com a leitura
A minha primeira professora, D. Neusa... não tinha parecer nem formosura, além de ser uma figura sem graça, muito autoritária. Sempre conduzido em uma das mãos um livro feito um rolo. Com aquele rolo ela chamava atenção dos alunos batendo na cabeça deles quando estavam conversando.
Encher o caderno com fileiras de a, e, i, o, u, foi o primeiro exercício. Autoritária, ela me apresentava os sinais para escrever e ler o mundo. Ganhar o seu visto feito com lápis azul ou vermelho riscava com medo toda a minha vida. Eu lia toda a cartilha criando as mais diversas histórias a partir das gravuras. Tinha um compromisso as 18:00h na casa de D. Margarida, uma velha senhora paraibana que contava inúmeras histórias de trancoso, para mim e as outras crianças, essa era a minha melhor hora de aprendizagem. Detestava quando ela dizia: passou pela perna do pinto, entrou pela perna do pato; São João mandou dizer que contasse vinte quatro. Essa era a hora da despedida. Todos iam para suas casas, já ansiosos pelo outro dia a fim de ouvir mais histórias contadas por D. Margarida.
Estudei de 1ª a 4ª série com uma única professora, “ Novinha”, seu apelido carinhoso com o qual era conhecido por todos. Na primeira série todos os alunos já liam e sabiam resolver as quatro operações. O livro da primeira série trazia o nome “ Novo Nordeste” ele era volumoso e já exigia muito do aluno. Todos os dias era feito a leitura do ponto e todos os alunos eram convocados para a leitura. A avaliação contemplada na leitura estava centrada: na postura do aluno, dicção, altura da voz, entonação a partir da pontuação. A identificação de alguns desses itens a professora fazia o aluno dar o mesmo ponto no outro dia, indicando em que o aluno deveria melhorar.
Na primeira carteira eu prestava atenção a tudo, sendo elogiada como uma menina aplicada cheia de futuros. Nunca soube se precisa mesmo das suas lições ou de seu carinho(...) eu aprendia para ela. Mas, se não me esqueci de sua presença valeu a pena.
Sei que nestes quatro anos de ensino, praticados com gestos amorosos, dona Novinha, me ensinou demais, acho que do mesmo tanto que me ensinara meu pai, meu pai me contava histórias, me comparava com alguém importante e me confiava tarefas desafiadoras, do tipo: Lucinha se eu te der tanto e você comprar tanto. Quanto você me trás de troco? Eu pensava por alguns minutos e lhe dava a resposta certa. Ele se enchia de alegria e declarava. “ Essa menina tem futuro”.
Então dona Novinha me ensinava serem muitos os lugares da leitura e da escrita. De suas histórias lidas no fim da aula, eu ainda guardo o cheiro do livro.
Ingênua, supondo ser a vida um processo de soma e não de subtração, juntei a cada um de meus mestres um pedaço e protegi em minha intimidade. Concluo agora que, de tudo aprendido, resta a certeza do afeto, como a primordial metodologia. Se dona Novinha me tivesse dito que o sol nasceria no poente e se escondia no nascente, seu carinho não me permitiria dúvidas.
As cantigas da minha tia, as histórias, exercícios, elogios e comparações do meu pai, as histórias de trancoso de dona Margarida, a fé viva da minha mãe, o autoritarismo de dona Neusa, as brincadeiras de criança, o casamento precoce, as experiências de de sala de aula , ser mãe com tão pouca idade, a faculdade, a pós-graduação e tudo mais, tudo ficou definitivamente impossível de ser desaprendido.
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